O uso do BIM na documentação e gestão de edificações
o caso da Faculdade de Arquitetura da UFRGS
DOI:
https://doi.org/10.46421/enebim.v6i00.7619Palavras-chave:
BIM, Ensino de Arquitetura e Urbanismo, Patrimônio Arquitetônico Moderno, Gestão de Patrimônio EdificadoResumo
Este trabalho apresenta resultados da pesquisa “O BIM na Documentação de Edifícios”, desenvolvida junto ao Departamento de Arquitetura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FA/UFRGS). A pesquisa tem como objetivo investigar a aplicação do Building Information Modeling (BIM) na documentação de edificações de interesse histórico e relevância arquitetônica, com ênfase em seu uso como ferramenta pedagógica no ensino de arquitetura e na formação de novos profissionais. O estudo iniciou em agosto de 2024, contou com a participação de professores da FA/UFRGS e 3 estudantes de iniciação científica (IC), e tratou da modelagem digital de um dos estudos de caso, o edifício da própria Faculdade de Arquitetura. Inserido no contexto da arquitetura modernista, o edifício caracteriza-se por uma composição em “L”, conformando a esquina, com volumetria dividida entre base e corpo. Reconhecido como importante marco histórico e arquitetônico, enfrenta desafios de conservação em função do desgaste natural e da ausência de intervenções adequadas, o que motivou sua escolha como objeto da investigação.
A metodologia adotada envolveu pesquisa bibliográfica e estudo de caso. A primeira etapa consistiu em uma Revisão Sistemática da Literatura (RSL) na base de dados Scopus, utilizando os termos “Modelo BIM” OR “Building Information Modeling” combinados com palavras-chave como “Digital Documentation”, “Documentation of Historic Building”, “BIM Heritage”, “Teaching Learning”, “Learning objects” e “Architecture”, totalizando 217 artigos, dos quais 33 foram selecionados para compor a base teórica da pesquisa. A revisão identificou desafios recorrentes na documentação em BIM, como interoperabilidade entre softwares, ausência de diretrizes padronizadas e definição de níveis adequados de detalhamento (LOD), além de tendências como o uso de varredura a laser, fotogrametria e adoção do padrão IFC para garantir compatibilidade entre sistemas (Costa et al., 2021; Arayici et al., 2017). A pesquisa foi estruturada com base no BIM Framework proposto por Succar (2009), contemplando os campos de Tecnologia, Processo e Políticas. No campo da Tecnologia, foram utilizadas ferramentas como o Archicad 27 e instrumentos de medição a laser; no Processo, organizaram-se as atividades de levantamento e modelagem; e nas Políticas, definiram-se diretrizes internas de modelagem a partir de templates acadêmicos adaptados. Quanto aos estágios de maturidade BIM, o estudo localiza-se no Estágio 1 (Modelagem), ao desenvolver o modelo tridimensional informacional do edifício; inicia avanços para o Estágio 2 (Colaboração), ao integrar medições diretas e documentos históricos em um modelo compartilhado para uso acadêmico e administrativo; e abre possibilidades futuras para o Estágio 3 (Integração), com perspectivas de uso contínuo na gestão patrimonial da universidade. Na segunda fase, o estudo de caso da FA/UFRGS envolveu a busca de registros históricos e documentais que confirmassem a relevância do objeto de estudo, seguida da modelagem do edifício. A modelagem foi realizada com base em plantas digitalizadas de projetos originais e arquivos CAD do acervo da FA, utilizando o software Archicad 27 e o template da disciplina Representação Gráfica I. Durante o processo, foram constatadas inconsistências nas plantas disponibilizadas, o que exigiu medições diretas no edifício para garantir a precisão do modelo. As medições, iniciadas pela biblioteca no térreo, abrangeram paredes, mobiliário e demais elementos construtivos, utilizando trenas a laser e manuais conforme a necessidade. A biblioteca apresenta mezanino e pé-direito elevado, o que exigiu o uso de trenas a laser para medições maiores e trenas manuais para detalhes. Com a conclusão do primeiro pavimento, iniciaram-se as medições dos demais pavimentos. No momento, o modelo encontra-se finalizado, sendo realizados pequenos ajustes. O modelo está sendo utilizado pela direção da FA para planejamento de reestruturações na infraestrutura, e há previsão de expansão da metodologia para outros edifícios do Campus Central da UFRGS. Neste processo, foram explorados diversos usos do BIM da Categoria I do BIM Excellence, como Modelagem Arquitetônica (representação do edifício), Modelagem Estrutural (representação dos elementos estruturais) e, em perspectiva futura, Modelagem Urbana, através da replicação do processo para o conjunto do Campus Central da UFRGS. No campo dos usos do BIM da Categoria II (domínios específicos), destacam-se a Captura e Representação (levantamento das condições reais do edifício), o Planejamento e Projeto (modelagem e organização de dados para futuras reformas), a Simulação e Quantificação (identificação de divergências entre projeto e realidade construída), além da Operação e Manutenção (uso do modelo para planejamento de melhorias na infraestrutura). Futuramente, o modelo também poderá ser utilizado para Monitoramento e Controle do edifício.
Entre as principais dificuldades enfrentadas na modelagem, destacam-se a identificação de materiais e elementos estruturais, a ausência de projetos complementares (hidrossanitário, elétrico) e a necessidade de compatibilização de medições. Também se evidenciou a escassez de bibliotecas de objetos compatíveis com as esquadrias originais, exigindo adaptações e detalhamento manual. A experiência de iniciação científica proporcionou aos estudantes uma vivência prática no domínio do BIM, enriquecendo sua formação acadêmica. Com carga horária prevista de 20 horas semanais, os bolsistas participaram de reuniões semanais ou quinzenais do grupo de pesquisa e se envolveram em atividades práticas de levantamento, modelagem e análise crítica. A dedicação variou conforme a etapa da pesquisa, sendo ajustada em função das demandas e complexidade das tarefas em andamento. Simultaneamente, a universidade se beneficia da criação de um modelo digital atualizado do edifício, que contribui para o planejamento de intervenções, a gestão da infraestrutura e a preservação do patrimônio arquitetônico. Para os estudantes, além do aprofundamento técnico no uso do BIM, a participação no projeto favorece o desenvolvimento de competências como trabalho colaborativo, raciocínio crítico, organização metodológica e maior familiaridade com processos de pesquisa acadêmica e inovação tecnológica. A experiência também amplia a compreensão sobre a importância da documentação digital como instrumento estratégico no contexto da conservação, do ensino e da gestão universitária. Por fim, a pesquisa aponta perspectivas futuras, como a integração do BIM com inteligência artificial e ontologias específicas de patrimônio, visando padronizar processos e otimizar fluxos de trabalho. A continuidade do estudo prevê a replicação da metodologia em outras edificações, consolidando diretrizes para a documentação digital do patrimônio arquitetônico (Canuto & Salgado, 2019).
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Referências
Arayici, Y., Counsell, J., Mahdjoubi, L., Nagy, G. A., Hawas, S., & Dweidar, K. (Eds.). Heritage Building Information Modelling. Taylor & Francis, 2017. https://doi.org/10.4324/9781315628011Northumbria University Research Portal+1Taylor & Francis+1
Canuto, C. L., & Salgado, M. S. Modelo BIM do Palácio Gustavo Capanema 1937-1945: pela preservação digital do patrimônio moderno. Gestão & Tecnologia de Projetos, 15(1), 101–116, 2019.https://doi.org/10.11606/gtp.v15i1.152823
Costa, H. A., Souza, M. P., Baldessin, G. Q., Albano, G., & Fabricio, M. M. (2021). Modelagem BIM para o registro digital do patrimônio arquitetônico moderno. Revista Projetar, 6(1), 49–68, 2021. https://doi.org/10.21680/2448-296X.2021v6n1ID21331
Succar, B. (2009). Building information modelling framework: A research and delivery foundation for industry stakeholders. Automation in Construction, 18(3), 357–375, 2009. https://doi.org/10.1016/j.autcon.2008.10.003
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