Do modelo à integração em uma capela religiosa
desenvolvimento de projetos complementares em uma capela no Revit
DOI:
https://doi.org/10.46421/enebim.v6i00.7760Palavras-chave:
Projetos, BIM (Building Information Modeling), ensino e aprendizagem, Instalações Hidrossanitárias, Instalações elétricas, Automação, Instalações PrediaisResumo
A elaboração de projetos complementares em edificações ainda representa um desafio significativo no contexto do ensino de Modelagem da Informação da Construção (BIM), sobretudo quando se trata de obras com características específicas e simbólicas, como os espaços religiosos. Essas edificações exigem uma abordagem projetual cuidadosa, que alie funcionalidade técnica às particularidades culturais, espirituais e arquitetônicas do ambiente. Em razão disso, o desenvolvimento de projetos para esses espaços demanda um olhar sensível e multidisciplinar, que compreenda não apenas os aspectos físicos da construção, mas também os sentidos e valores atribuídos ao espaço por seus usuários. O presente relato tem como objetivo compartilhar uma experiência de ensino-aprendizagem voltada para o desenvolvimento das instalações complementares — elétricas, hidrossanitárias e de automação — de uma capela localizada na cidade de João Pessoa, no estado da Paraíba, utilizando o software Revit da empresa americana Autodesk, uma das ferramentas mais consolidadas na metodologia BIM. A atividade foi realizada entre dezembro de 2024 e maio de 2025, no âmbito de um projeto de pesquisa vinculado ao Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), no curso Técnico Integrado em Edificações. Estruturada como uma estratégia de integração entre teoria e prática, a proposta consistiu em simular um processo projetual completo, permitindo que o discente enfrentasse situações técnicas reais, tomasse decisões embasadas em critérios normativos e funcionais, e refletisse sobre os aspectos simbólicos e contextuais da edificação. O nível de ensino envolvido é técnico integrado ao ensino médio, e a área do curso está situada no campo da construção civil. O trabalho foi desenvolvido de forma individual, orientado por três diferentes professores da instituição, com abordagem teórico-prática e metodologias ativas centradas na autonomia do estudante. A experiência buscou, portanto, não apenas o domínio instrumental da ferramenta BIM, mas também a construção de uma compreensão mais crítica e contextualizada do papel da tecnologia em projetos com usos específicos e significados culturais profundos.
A proposta foi conduzida ao longo de aproximadamente 360 horas, distribuídas ao longo de seis meses, e estruturada em etapas progressivas com entregas parciais previamente definidas. O ponto de partida foi um modelo arquitetônico da capela previamente desenvolvido dentro do sistema de modelagem 3D, com base no qual foram elaborados os projetos complementares de forma integrada. Para a realização da modelagem das instalações, considerou-se critérios técnicos de desempenho, segurança, acessibilidade e eficiência energética, além de respeitar os limites físicos e simbólicos da edificação. Também foram avaliadas questões relativas à manutenção, durabilidade dos sistemas e impacto ambiental das soluções adotadas. Ao longo do período foram realizadas reuniões quinzenais entre o discente e seus orientadores para a definição de metas, revisões técnicas e replanejamento de etapas conforme os desafios encontrados. O desenvolvimento envolveu a exploração de diversas ferramentas do Revit para criação e análise de sistemas prediais, incluindo o uso de famílias personalizadas, sistemas conectados, tabelas de quantitativos, vistas específicas para documentação e filtros gráficos. Entre os desafios enfrentados, destacaram-se a compatibilização entre disciplinas, o lançamento eficiente de dutos e tubulações em espaços reduzidos, a escolha adequada de equipamentos e o dimensionamento técnico das instalações, respeitando as condições arquitetônicas e a estética do projeto original. Além disso, foi necessário realizar pesquisas complementares sobre o funcionamento típico de espaços religiosos, incluindo exigências de conforto térmico, acústico e lumínico, bem como critérios simbólicos relacionados à disposição dos ambientes, como a orientação do altar e a circulação dos fiéis. O conceito de automação predial foi introduzido com foco em soluções de baixo custo e fácil implementação, voltadas ao controle automatizado de iluminação e ventilação natural, considerando o uso esporádico da capela, as características construtivas e as condições climáticas da região Nordeste. O processo também incluiu o estudo aprofundado de normas técnicas brasileiras (como a NBR 5410, a NBR 5626 e a NBR 15575), os manuais de fabricantes e as referências bibliográficas sobre arquitetura sacra, contribuindo para fundamentar as decisões de projeto com base em dados concretos e coerentes com a realidade prática.
Como resultado da experiência, observou-se um avanço significativo na compreensão dos processos envolvidos na elaboração de projetos complementares em ambiente BIM, com ênfase na integração entre sistemas e na representação gráfica e técnica fundamentada em critérios normativos. Além do mais, houve também o desenvolvimento de competências classificadas nos domínios técnicos (T2) e de modelagem (M1) da tabela de competências da BIMe Initiative, em nível intermediário, envolvendo a criação e coordenação de modelos multidisciplinares articulados. A vivência proporcionou a aplicação prática de conteúdos vistos em disciplinas como instalações prediais, conforto ambiental, informática aplicada e representação técnica, promovendo a articulação de saberes e o desenvolvimento de habilidades como análise crítica, tomada de decisão, pesquisa técnica e argumentação projetual. Sendo assim, a utilização do BIM foi compreendida não apenas como um recurso gráfico ou ferramenta de produtividade, mas como um meio de estruturar o raciocínio projetual e integrar informações diversas em um modelo único, permitindo simular, avaliar e comunicar soluções de forma mais eficaz. Além disso, a experiência reforçou a importância de metodologias pedagógicas centradas no discente, promovendo autonomia, protagonismo e uma maior aproximação com a realidade profissional do setor da construção civil. Os resultados evidenciaram também a relevância de abordagens interdisciplinares e contextualizadas no ensino técnico, sobretudo quando aplicadas a edificações com demandas simbólicas e funcionais específicas, como as religiosas. Espera-se que este relato contribua com a formação técnica e projetual de futuros profissionais, valorizando abordagens pedagógicas contextualizadas, interdisciplinares e aplicadas à prática profissional, reafirmando, assim, o potencial do BIM não apenas como tecnologia de modelagem, mas como ferramenta pedagógica eficaz e transformadora na formação de profissionais conscientes das múltiplas dimensões do ambiente construído.
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Referências
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EASTMAN, C. et al. Manual de BIM: um guia de modelagem da informação da construção para arquitetos, engenheiros, gerentes, construtores e incorporadores. Porto Alegre: Bookman, 2014.
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