Revisitando o ENEBIM

proposta para o ensino de preservação do patrimônio histórico usando o HBIM

Autores

DOI:

https://doi.org/10.46421/enebim.v6i00.7615

Palavras-chave:

BIM, HBIM, Tecnologias digitais, Ensino, Patrimônio

Resumo

Apesar dos avanços no uso de tecnologias digitais na arquitetura, o ensino
da conservação do patrimônio histórico ainda enfrenta desafios em incorporar
práticas digitalizadas à formação dos estudantes. Em um cenário onde cresce a
demanda por metodologias pedagógicas mais integradas e alinhadas à inovação
tecnológica, o uso de ferramentas digitais no ensino da preservação patrimonial
surge como um diferencial importante.
Nas cinco edições anteriores do ENEBIM (2018, 2019, 2021, 2022 e 2023),
apenas 4 dos 265 trabalhos publicados abordaram a relação entre o ensino de
preservação da patrimônio e a metodologia BIM, o que sugere uma exploração
ainda limitada diante das múltiplas possibilidades oferecidas. Ribeiro e Souza (2019)
e Avalone Neto (2019) foram os primeiros a apresentar experiências didáticas nessa
temática, ambas centradas na modelagem HBIM. No trabalho de Ribeiro e Souza, a
proposta integrou as disciplinas de História da Arquitetura e Urbanismo e Expressão
Gráfica, com a elaboração de modelos HBIM de edificações habitacionais do século
XX, facilitando a compreensão dos estilos arquitetônicos e incentivando o
protagonismo discente. Avalone Neto, por sua vez, relatou uma experiência com a
modelagem da residência Carmem Portinho, acompanhada semanalmente em
ambiente virtual, sendo incorporado pelos estudantes em outras disciplinas. Em
2021, Ribeiro e Simonini apresentaram uma experiência voltada à modelagem de
estações ferroviárias do patrimônio histórico do Rio Grande do Norte, enquanto
Barretto et al. (2023) relataram o uso do BIM no contexto do LaBIM UFBA, propondo
a requalificação de um edifício existente a partir da modelagem como base para o
projeto.
Observa-se, portanto, que os trabalhos apresentados até o momento tem se
concentrado na modelagem de edificações como eixo central das atividades
pedagógicas. Diferenciando-se dessa abordagem, o presente estudo propõe a
integração de ferramentas digitais como escaneamento 3D, nuvem de pontos,
fotogrametria e HBIM no ensino sobre o patrimônio, sem exigir, necessariamente, a
modelagem por parte de docentes ou discentes.
Diante desse cenário, torna-se pertinente retomar o tema no ENEBIM. Assim,
esse trabalho apresenta uma proposta, desenvolvida na disciplina “BIM no ensino
de arquitetura” (PROARQ-UFRJ), de inserção das possibilidades do BIM, associado
a outras tecnologias digitais, no ensino da disciplina Seminário do Patrimônio, da
grade curricular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (FAU-UFRJ). O objetivo dessa proposta é de ampliar as
possibilidades de aplicação didática do BIM e de tecnologias citadas de forma
acessível e tecnicamente relevante para o processo de ensino e aprendizagem.
Para o desenvolvimento da estratégia didática proposta, realizou-se uma
revisão bibliográfica orientada pela pergunta: como contribuir para uma abordagem
mais didática do ensino da conservação de bens culturais com BIM, integrando
escaneamento 3D e fotogrametria ao ensino? A busca concentrou-se em
experiências que utilizam essas tecnologias na formação acadêmica, com o objetivo
de simular sua aplicação na disciplina Seminário de Preservação. Inicialmente, os
termos utilizados incluíram ensino em arquitetura, patrimônio, conservação, BIM, H-
BIM e Heritage. No entanto, o uso do termo “ensino em arquitetura” reduziu
significativamente os resultados, evidenciando uma lacuna na produção científica
sobre o tema. Optou-se, então, por sua retirada, o que ampliou o número de

publicações e permitiu compreender como essas tecnologias vem sendo aplicadas
na prática no Brasil. Foram selecionados 12 artigos, publicados entre 2015 e 2024,
nas revistas Gestão e Tecnologia de Projetos, PARC: Pesquisa em Arquitetura e
Construção, Ibero-Americana de Ciência da Informação, Fórum Patrimônio, Boletim
do Gerenciamento e Projetar, além de trabalhos apresentados em eventos
nacionais como ENEBIM, SPQP e SBTIC.
Tecnologias como escaneamento 3D e fotogrametria representam
alternativas eficazes aos métodos manuais de levantamento, permitindo a coleta
precisa de informações espaciais e o registro fiel da forma real das edificações,
incluindo irregularidades, deformações e desgastes ao longo do tempo (COELHO,
2020). Segundo Silva et al. (2022), um dos principais entraves ainda é o uso de
ferramentas convencionais, como o AutoCAD, na elaboração de mapas de danos, o
que restringe os projetos a formatos impressos, dificultando o fluxo de informações
e limitando a riqueza gráfica das representações. Nesse contexto, o BIM permite
organizar os dados captados pelas tecnologias de sensoriamento e traduzir as
patologias do edifício patrimonial, favorecendo decisões mais assertivas para sua
preservação (DUTRA, 2019).
Com base na revisão bibliográfica, propõe-se um esquema didático composto
por quatro etapas: (1) levantamento histórico-iconográfico da edificação; (2) captura
de imagens via fotogrametria e/ou nuvem de pontos para análise de detalhes e
mapeamento de danos; (3) leitura crítica do estado de conservação e proposição de
soluções compatíveis; e (4) modelo HBIM incorporando as intervenções. A proposta
foi estruturada em quatro eixos principais: escaneamento 3D, nuvem de pontos,
fotogrametria e HBIM. Cada eixo contempla atividades teóricas e práticas,
evidenciando o potencial pedagógico dessas ferramentas para aproximar teoria e
prática no processo de ensino-aprendizagem. O escaneamento 3D possibilita a
reconstituição virtual de fases construtivas com base em dados históricos, enquanto
a nuvem de pontos favorece a análise de danos e a modelagem digital. A
fotogrametria contribui para a compreensão do valor histórico do patrimônio a partir
da coleta de imagens, e o HBIM viabiliza o estudo de patologias e a elaboração de
planos de intervenção, além do gerenciamento total da edificação, a partir de
modelos digitais.
Dessa forma, a implementação das tecnologias digitais e da modelagem BIM
na disciplina Seminário de Preservação do Patrimônio busca proporcionar aos
estudantes uma compreensão mais profunda dos processos de conservação do
patrimônio arquitetônico, aproximando-os da realidade prática da análise e
intervenção em edificações históricas. Isso favorece o desenvolvimento de uma
visão crítica desde o diagnóstico até o planejamento das ações preservacionistas.
Além disso, essas tecnologias possibilitam a visualização e o registro preciso de
danos e patologias, promovendo propostas de conservação fundamentadas em uma
imersão digital e visual do bem histórico. No entanto, o conhecimento restrito sobre
as possibilidades oferecidas pelo BIM — muitas vezes visto apenas como uma
ferramenta de modelagem — tem limitado seu uso em disciplinas teóricas, como
história e preservação do patrimônio. A experiência imersiva que essas ferramentas
podem oferecer ainda não foi plenamente incorporada ao ensino, mas configura-se
como uma alternativa importante para o estudo do patrimônio histórico.

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Biografia do Autor

Claudia Menezes, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Mestranda em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro - RJ, Brasil).

Mônica Santos Salgado, Universidade Federal do Rio de Janeiro

Doutora em Engenharia de Produção COPPE/UFRJ. Professora Titular na Universidade Federal do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro - RJ, Brasil).

Referências

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Publicado

2025-08-18

Como Citar

MENEZES, Claudia; SALGADO, Mônica Santos. Revisitando o ENEBIM: proposta para o ensino de preservação do patrimônio histórico usando o HBIM. In: ENCONTRO NACIONAL SOBRE O ENSINO DE BIM, 6., 2025. Anais [...]. Porto Alegre: ANTAC, 2025. DOI: 10.46421/enebim.v6i00.7615. Disponível em: https://eventos.antac.org.br/index.php/enebim/article/view/7615. Acesso em: 3 maio. 2026.

Edição

Seção

Planejamento de inserção de BIM na educação